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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Nos limites da Idolatria

Texto: Por Arucha Fernandes
Fotos: Divulgação

“Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar”. (Engenheiros do Hawaii)

Sábado, uma e trinta da tarde, no elevador panorâmico é possível assistir a movimentação do shopping daquele dia, as mãos ansiosas seguram o dispositivo que permitirá o registro do encontro. A chegada no último andar avisa que é hora de enfrentar os ternos pretos para conseguir atingir o objetivo da missão. Sem maiores complicações o alvo é avistado a poucos metros de distância, e nesse momento os rinocerontes que habitam o estômago estão mais agitados que nunca. A abordagem é um sucesso. E finalmente a recompensa: a foto com um Colírio da revista Capricho.

Se você tem menos de dezesseis anos não se preocupe por não estar entendendo nada, a explicação é simples. Essa é a história que Stephanie Pimentel, 15 anos, conta a todos os amigos nela relata a pequena invasão no Hotel Miramar para conseguir um contato mais próximo com Federico Devito e Dudu Surita, as novas sensações entre as garotas. Os rapazes, selecionados pela revista Capricho receberam o titulo de colírios em uma promoção.


Stephanie conseguiu foto com Colírio

“Quando saí do hotel, cerca de 200 meninas aguardavam para ver os Colírios. Mas eles tinham acabado de ir embora”, diz Stephanie. Depois do ocorrido, pela internet, algumas fãs mais exaltadas culparam a espiã brasileira por não conseguir uma aproximação com os rapazes, uma vez que ela “ocupou” o tempo deles.

Mas nem só de colírios vivem as fãs brasileiras, outro que vem roubando a atenção de milhares de meninas por todo mundo é o cantor americano Justin Bieber. Prova dessa paixão é a estudante Isabela Passos, 15 anos, que confessa ser viciada no astro pop. Ela conta que para se manter informada de tudo que acontece com o ídolo, passa horas na internet acompanhando sites, notícias, twitter. E que graças a todo esse empenho certa vez conseguiu um contato por meio de um possível endereço de e-mail do cantor.Sobre a possível vinda do Justin Bieber para se apresentar no Brasil, declara que a mãe já prometeu a compra dos ingressos. “Se ele vier, sou capaz de surtar”, diz.

Entre as loucuras cometidas em nome da paixão pelo ídolo afirma que até pensar em cometer um pequeno delito já passou por sua cabeça. “Certa vez quase roubei o cd do Justin Bieber, mas uma amiga me impediu”, diz a adolescente. Esse ato foi só por brincadeira, mas aumentar o som no último volume e cantar sem se importar com os vizinhos ela admite fazer sempre.

Quanto à formação da sua personalidade, Isabela generaliza os adolescentes e diz que o comportamento dos artistas na mídia pode sim, influenciar as decisões e causar reflexões sobre vários assuntos.

Eles estão mais perto – os ídolos são outros. Os conceitos mudaram. E o mundo está diferente. Mas a admiração quase que obsessiva de adolescentes em cima de artistas continua a mesma. Os gritos histéricos, choro incontrolável e a sensação da que aquela criatura é a perfeição em forma de ser humano caracterizam essa fase pela qual todo adolescente passa, na qual está se criando uma identidade e a procura do lugar em que pertence.

O termo inalcançável não pode mais ser empregado à maioria dos artistas atualmente. As facilidades das relações, via internet, fizeram com que os fãs consigam um contato mais próximo com os ídolos. O twitter é o exemplo mais simples dessa revolução tecnológica, através dele é possível se comunicar em tempo real com qualquer pessoa em todas as partes do mundo. Porém, essa proximidade pode também contribuir para que a “paixão” se torne cada vez mais forte. E quando essa luz amarela acende é necessário analisar se a “coisa de adolescente” não está se tornando fanatismo.

Segundo a psicóloga, Claudia Alonso, tudo em demasia não é saudável, a diferença é que o fanatismo age de forma que você à primeira vista não percebe. E apenas com o olhar atencioso de familiares e educadores uma situação assim pode ser detectada.
Quando passa a fase da infância em que os sonhos e fantasia caem por terra, o adolescente se vê bombardeado pela mídia que o “obriga” se vestir, comportar e aparentar de tal modo sob a pena de ser excluído pela “galera”. Fora isso, os valores de cada família, o ambiente escolar e a cultura local formam um grande caldeirão que confunde e desestabiliza o jovem.

O problema está na forma como a mídia vende ao público esses artistas mostrando apenas o lado bom. Dessa forma esses ídolos se tornam perfeitos. Isso, somado ao fato de que a adolescência é por si só uma fase muita confusa onde o jovem não sabe direto quem é e como deve se comportar, faz com que ele projete nesse ídolo um ideal a ser seguido e mais que isso, copiado.

Quando esse ideal não é alcançado – até mesmo porque são parâmetros inalcançáveis, sejam de beleza, status e mesmo financeiro – a frustração se faz presente. E é exatamente nesse ponto que a fixação exagerada fica perigosa. Os indícios podem ser diversos como depressão, alcoolismo, drogadição e até mesmo violência.
E para resolver essa situação três palavras são imprescindíveis: sensibilidade, disponibilidade e comprometimento. “As pessoas estão muitos solitárias. Virou démodé e careta ser afetivo”, diz a psicóloga. Somente com esse cuidado será possível fazer com que o adolescente enxergue o mundo real, e pare de usar a fantasia – refugio da infância – para se sentir aceito.

“Família e educadores são fundamentais para perceber esse comportamento e, juntos, de uma maneira saudável, mostrar que é legal ter ídolos, mas a vida é diferente”, afirma Claudia. O importante é que as pessoas em volta desse adolescente tentem conversar e escutar qual é o problema.


“Sou uma fã, mas sou controlada”


Em todos os aspectos da vida o equilíbrio se mostra indispensável para manter a mente sã e para contornar situações adversas que apareçam pelo caminho. No caso do fanatismo a mesma premissa tem que ser levada em consideração. Para ter uma vida saudável o recomendável é ser fã sem exageros. Essa é a medida correta para conseguir que esses ídolos façam parte da vida do adolescente, mas sem consumi-la por inteiro.

“Sou uma fã, mas sou controlada”, diz Marcela Mattos, 16 anos. Fã da atriz/cantora Miley Cyrus, ela é categórica ao afirmar que embora admire o trabalho da popstar não se considera uma fanática. Estudante do 2º ano do Ensino Médio, ela conta que conheceu o trabalho da cantora por meio de amigas, e que as músicas com temas comuns na adolescência a transformaram em sua cantora predileta.

Fã de Miley Cyrus, Marcela afirma que equilíbrio é ideal

Para a adolescente, as músicas ajudem na construção da autoconfiança, mas é também preciso ficar atento e enxergar os maus exemplos desses artistas. “É legal ter um ídolo, mas não é legal tentar imitar o ídolo, temos que ter nossa própria identidade, e personalidade”, comenta.

Embora não dispense uma revista com sua cantora preferida na capa, a estudante também é moderada no aspecto do consumismo. “Quando sai uma revista ou outra dela, lógico que eu compro, mas só se estiver ao meu alcance, nada de ficar implorando e chorando por não ter a revista”, diz.

Quando assunto é tecnologia, Marcela, diz que o twitter ajuda a demonstrar que os ídolos são pessoas comuns e que realmente se importam com o carinho das fãs. Ela revela que já conseguiu algumas respostas, do galã americano Leonardo DiCaprio e da própria Miley Cyrus, por meio dessa ferramenta. Também confessa que só ingressou no microblog para poder acompanhar os artistas preferidos.

Confira em página exclusiva (alto da página), quadro sobre as principais tragédias no mundo da música, realizada por fãs.

Leitura vem de berço

Texto e fotos: Por Gabriel Martins

Santos é uma das cidades do estado de São Paulo que possui maior número de leitores, sendo boa parte deles jovens


Contar histórias para os netos é o que motiva Neuza Carvalho Sousa e Mirian Gabrielle Reis a frequentarem as palestras de Fernando Rino por Santos.
Entre os sábados do dia 15/03 até 29/03, Fernando esteve na Gibiteca mostrando a arte de contar histórias, de forma criativa e agradável. Quem estava presente também pode entrar em contato com técnicas de expressão corporal e vocal, além da prática de teatro com máscaras, boneco de luva, boneco de vara, mamulengo e fantoche.

Segundo Fernando Rino, palestrante do projeto Leia-Santos há um ano, atitudes como essa, de Neuza e Mirian são cada vez mais raras hoje em dia e, que sem esse incentivo dos adultos, os jovens vão ler cada vez menos.”Hoje, sem duvida nenhuma, os jovens querem ler e escrever, eu procuro mostrar que estas atividades podem ser divertidas, não precisa ser algo maçante, mas o exemplo tem que vir de dentro de casa, é praticamente impossível um jovem querer ler por conta própria”.

Outro ponto abordado por Fernando Rino é a condição financeira das famílias. Segundo sua experiência, pessoas de baixa renda têm menos interesse em ler, pois a família não o incentiva. “Isso (não ler) é um ciclo vicioso. É muito difícil ver adultos de famílias carentes ensinando seus filhos a ler, eles não têm o hábito da leitura e por consequencia não criam esse costume em seus filhos”.

Sonia Linda Galvão é professora há 25 anos, há cinco anos dá aula de Literatura para o segundo ano do Ensino Médio de colégio estadual. Segundo ela muito de seus alunos já chegam com o pensamento de que ler é chato. “Eu sempre trabalhei em colégio estadual, e posso afirmar que são raros os alunos que se interessam por ler, muito por causa do método de ensino das escolas.”

Segundo Sônia, as escolas obrigam alunos a lerem Machado de Assis e Camões, por exemplo, transformando gênios da literatura em matérias como matemática ou história. “Na verdade ninguém deveria ser obrigado a ler Os Lusíadas, porque, para quem não tem o hábito da leitura, esse livro acaba ficando chato mesmo. O jovem tem que ser educado a ler livros desde criança, qualquer leitura é válida, o importante é ele ser estimulado a ler sempre, para em um futuro próximo ter vontade de pegar A Cartomante e ter prazer em lê-lo”.

Jamir Lopes, coordenador de Informação e Centros Culturais da Prefeitura de Santos, informa que os jovens preferem ir à biblioteca Municipal Mário Faria localizada na praia da Aparecida, no posto 6. Esta biblioteca possui um acervo de 6000 títulos, entre eles, revistas, jornais e livros. Por mês, segundo Jamir, há 2.500 empréstimos.
Entre os livros mais emprestados pelas bibliotecas de Santos destacam-se três. Os de auto-ajuda, os da série Harry Potter e também a recente saga de Crepúsculo. O que, para a bibliotecária Sueli Aparecida Lopes, responsável pela Biblioteca do posto 6, mostra a força dos jovem na leitura. “Pode até não ser livros de autores renomados, mas pelo menos mostra o interesse dos jovens em ler algo.”

Projeto Leia Santos -
O intuito deste projeto é criar interesse nas pessoas pela leitura de livros, revistas e jornais. No que diz respeito ao público jovem, Lopes menciona uma parceria com a editora Paulus. Em workshops são distribuídos kits com livros feitos para criança de autores como Machado de Assis, Augusto dos Anjos, José de Alencar, entre outros.
Também há projetos, como o visto acima, de “Como Contar uma História”, com Fernando Rino. ( Veja um trecho da aula no vídeo)

Mas, para Fernando Rino, falta um incentivo maior para as crianças. Ele conta que costumava trabalhar em São Paulo em um projeto que visava leitura para crianças carentes, mas a prefeitura não quis dar continuidade. “Falta um planejamento maior para que se consiga ter um resultado melhor, não é uma palestra ou aulas esporádicas que vão fazer as crianças querer ler. Mesmo aqui na cidade, o Leia-Santos não é o suficiente para suprir esta carência.”

Este projeto foi criado há seis anos e funciona todo os finais de semana sempre em um lugar diferente da Baixada Santista.Para conferir a programação completa do projeto no mês de junho clique aqui.

O Doutor explica (conteúdo exclusivo)

Texto e foto: Thaís Cardim



Viciados em fast-foods, guloseimas e refrigerantes, os jovens vêm se tornando alvo de estatísticas nutricionais nada positivas. O médico pediatra Maurício Lahan explica como a má alimentação pode por em risco a saúde desses adolescentes

Thaís Cardim: Uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que a nossa faixa etária seria a primeira geração que teria uma expectativa de vida reduzida devido a doenças como obesidade e hipertensão, que têm sido registradas em crianças e adolescentes. O senhor concorda com esses dados?


Dr. Maurício Lahan: O aumento dessas doenças nessa faixa etária é um fato, mas acredito que isso interferir na expectativa de vida seja exagero. No mundo todo, a medicina está bem evoluída nessa área. Vai depender daquele adolescente, quando se tornar um adulto, fazer o tratamento adequado, senão complica. O que sabemos é que a criança que é obesa hoje tem uma probabilidade maior de ficar doente, com hipertensão e diabetes, do que uma criança há 20, 30 anos atrás. A obstrução das artérias tem começado mais cedo. Quando me formei, não era uma prática nossa dosar o colesterol e a glicemia de crianças. Hoje a gente pede e tem muita criança com colesterol alto.

TC: Por que essa mudança?

ML:
Culpa dos “Mc Donald’s da vida”. Ninguém come mais feijão com arroz; todo mundo come catchup, mostarda, maionese, essas “coisarada” toda.

TC:Além de hipertensão e obesidade, essa dieta que nós temos pode acarretar quais doenças?

ML:
O sedentarismo, internet, a facilidade em ter tudo, leva o jovem a apresentar quadros de depressão. A diabetes também tem crescido nessa faixa etária. O aumento de peso se deve ao fato de todo mundo comer rápido e errado, não só o jovem. No caso do adolescente, a mãe nem está em casa para ver o que ele está comendo; dá o dinheiro e manda ele comer nos restaurantes por quilo. A mulher não tem mais tempo para isso. O feijão demora duas horas para cozinhar. A comida saudável tem um tempo de preparo mais demorado, por isso que as pessoas comem em lugar “pronto”. Esse tipo de alimentação pode antecipar problemas.
O metabolismo do crescimento absorve muito do que o adolescente come, pois ele precisa de muita energia para isso. Passada essa fase, se o adolescente persiste nesse modelo de alimentação e não gasta essa energia extra, só cresce para os lados (risos). É o risco que se corre ao não praticar um esporte, ao ficar horas na frente do computador. Eu vejo que vocês vão mais à academia para moldar o corpo, não para moldar a saúde.

TC: Há riscos para quem troca a ingestão de água por refrigerantes?

ML: Obesidade, pois o refrigerante tem muita caloria.

TC:Os sucos em pó ainda são uma alternativa mais saudável do que os refrigerantes?

ML:
Entre eles e o refrigerante, o segundo ainda é melhor. Esses sucos contém uma substância chamada sorbitol, que é um tipo diferente de açúcar, que não se deteriora e tem muita caloria. O ideal mesmo é beber água e comer à moda antiga: arroz, feijão, batata frita caseira, pois não contém gordura transgênica, bife, alface ... essas coisas.

TC: Mesmo com essa má alimentação, uma pesquisa afirma que a nossa estatura é maior do que a dos nossos pais. Não é um contrasenso?

ML:
Não é só a alimentação que é responsável por esse crescimento e sim a melhora da qualidade de vida, da renda da família, das condições habitacionais, controle de infecções, vacinação em massa ... Tudo ajudou. A alimentação é só um dos fatores.

Igreja evangélica com pegada rock n’ roll

Texto:Por Alexandre Alves
Fotos: Divulgação



A revista Profile enviou o repórter Alexandre Alves para mostrar o trabalho da Bola de Neve Church, que utiliza a música como instrumento de evangelização e tem seus cultos voltados especialmente ao público jovem. Entre um solo de guitarra e outro, o pastor consegue relatar palavras bíblicas de forma extrovertida, reunindo na Igreja jovens que procuram, além da paz interior, auxílio para problemas com álcool, drogas e transtornos emocionais




Domingo de manhã, culto em Igreja Evangélica e... rock n’ roll. Enquanto o pastor, com um visual bem mais à vontade que aquelas tradicionais gravatas, pregava palavras religiosas, os músicos, em alto e bom som, tocavam melodias de empolgar qualquer um. Eu, batizado em Igreja Católica, nunca participei de qualquer religião a não ser da de meus pais, mas imagino que nenhum outro lugar pode ser parecido com a Bola de Neve Church, como é chamada.

O clima despojado é totalmente diferente daquilo que eu vi anteriormente em outras igrejas, e do que imagino também que seja nas diversas que não fui. Praticamente todos de tênis ou sandálias, no caso de mulheres, alguns de bermuda e outros até de boné com a aba virada para trás. Desde pequeno, aprendi que homens não deveriam entrar em Igreja e nem fazer o sinal da cruz se estivessem com a cabeça coberta. É considerado desrespeito.

Sob o slogan “In Jesus, we trust”, que em inglês significa “Em Jesus, nós confiamos”, a Bola de Neve tem como diferencial a informalidade típica dos jovens, e a ausência de dogmas, tradições e outros costumes religiosos. Além disso, a Igreja procura sempre manter a sua imagem associada a esportes radicais e seus louvores são em ritmo de pop rock.

“É algo que começa pequeno, vai crescendo e se transforma em uma avalanche que envolve todos”. Essa é a explicação para o nome da Igreja, segundo o pastor Eric Vianna, e que traduz o sentimento de todos que fazem parte dela.



O que me chamou muita atenção também é o fato de ter uma prancha de surfe em pleno o altar, servindo de bancada para o pastor durante o culto. Pode-se dizer que ela é o símbolo da igreja, algo comparado talvez à cruz no catolicismo. “Isso começou de maneira totalmente involuntária. Nossa primeira reunião foi em um showroom de uma empresa de surf wear em São Paulo. Não tínhamos um lugar para encostar a Bíblia e havia uma prancha do lado. Acabamos pegando-a para isso e virou um emblema da Igreja”, diz Eric Vianna.

Em determinado momento do culto, o pastor sai do altar, que logo se transforma praticamente em um palco, dando total espaço aos músicos, e o clima de show de rock dominava toda a Igreja. A banda é composta de baterista, baixista, guitarrista e três que se alternavam nos vocais com o passar das músicas. São duas mulheres e um rapaz, que lembra muito o estilo de um vocalista de hardcore (ou seria um gospel/hardcore?).

As músicas, de fato, mexiam muito com os frequentadores. Alguns choravam com a energia das palavras e das melodias, outros vibravam com bastante intensidade e era possível ver até gente pulando junto com o ritmo das canções. “A maior expressão do coração de Deus é a música. Dizem que o rock é do diabo, mas na verdade ele não tem nada. É um instrumento de adoração a Deus”, explica Vianna.

O pastor lembra também da capacidade de recuperação que a Igreja pode ter. Ele diz que os jovens da Bola de Neve procuravam algo que preenchesse o vazio em que viviam. “Buscavam no mundo, nas drogas, no rock n’ roll... Mas foi em Jesus que eles encontraram isso”.

Um exemplo disso é Bruno Brito, de 23 anos, hoje universitário, estudante de Engenharia de Produção, na Universidade Santa Cecília. Ele conta que conheceu a Igreja depois que uma amiga viu seu estado depois de uma festa rave. “Estava no fundo do poço, até que essa menina me ajudou. Eu vivia em um mundo de mentiras cheio de ilusão. Hoje a Bola de Neve é minha família”, diz.

Já a pastora Sheila Vianna fala que sua vida antes de se converter à Igreja era muito difícil. “Eu tinha uma vida sentimental muito conturbada e familiar também. Minha família era bem desestabilizada e foi destruída por adultérios, separação dos meus pais...”. Ela diz ainda que antes tinha um trabalho, fazia faculdade, mas considerava que aquilo era uma vida vazia. “Hoje, Deus me deu um marido, uma filha e vejo, dentro dos valores do evangelho, o quão longe estava daquilo que Deus tem para gente”, completa.

No culto, a maioria dos frequentadores era composta por jovens, mas também foi possível ver um número bem razoável de pessoas de mais idade, e até, de cabelos brancos. “A Bola de Neve, inicialmente, era composta apenas por jovens, principalmente surfistas e outros esportistas. Só que esses jovens começaram a crescer, constituíram família, vieram os filhos e agora somos uma Igreja familiar”, diz Eric Vianna. Ele completa dizendo que os pais de jovens, antes problemáticos, querem saber o que acontece com os filhos que mudaram e, por isso, acabam entrando para Igreja.

Mas também há aqueles mais velhos que entram na Igreja por outros motivos, como é o caso de Luis Carlos Alves, de 52 anos. “Eu entrei para a Igreja porque não agüentava mais a situação que vivia”. Após 35 anos no mundo das drogas, ele conta que foi procurado pelo pastor, na época um dos membros da Bola de Neve. “Ele veio me oferecer um prato de comida e eu, embriagado, ‘fumado’, ‘cheirado’, xinguei”. Alves se recuperou das drogas após longo período de abstinência e internação, e ainda sobreviveu a um câncer. Hoje, ele trabalha para a Igreja e diz “o mais gostoso é estar nos braços do Papai”.

Ao final do culto, depois de muita música acompanhada de emoções e palavras como “Amém” e “Aleluia”, o pastor volta ao altar e lê trechos da Bíblia Sagrada. Agora em um ritmo bem diferente daquele durante o “show”, ele passa as mensagens religiosas de uma maneira mais conservadora do que anteriormente. De qualquer maneira, é notável o trabalho diferenciado que a Igreja Bola de Neve realiza não só para jovens, mas para todos aqueles que a procuram.

Serviço:

Em Santos, a Igreja Bola de Neve fica à Rua Padre Anchieta, 187. Os cultos acontecem aos domingos, às 10 e às 19 horas, e às quartas-feiras às 20 horas. Mais informações pelo telefone (13) 3224-4979.
Para saber mais sobre a Igreja, acesse o site
(aqui).

Hora de se emancipar

Por Willian Guerra

Conviver com pessoas até então desconhecidas, em uma cidade de onde se conhece pouca coisa, sem o almoço de domingo na casa da avó, as conversas com o pai e os cuidados da mãe. Mesmo assim, a vida em república se torna uma das opções mais utilizadas pelos jovens que buscam, longe de suas casas, um futuro profissional. O que parece bagunça, aventura ou até loucura para uns, é incentivado por psicólogos que afirmam: a independência auxilia no amadurecimento


Não há um padrão de ideais entre os jovens, mesmo que sejam da mesma classe social. Há os que já estão formados e possuem um bom emprego, outros perseguem com empenho e firmeza um projeto de vida, enquanto muitos não sabem o que querem. Para os inseguros, que temem o futuro e se ligam em demasiado à casa e ao aconchego dos pais, a decisão de morar sozinho em uma república pode ser uma aula eficaz de independência construtiva, um caminho suave para a vida adulta.

Não se trata apenas de aprender a cozinhar, lavar e passar, e a conviver com as pessoas que eles nunca viram. Trata-se de aprender a ser livre sem esbarrar nos direitos dos outros, o que é uma experiência positiva para a vida pessoal e profissional, segundo educadores, psicólogos e até alguns moradores ou egressos de repúblicas.

Letícia Schumann, estudante de jornalismo, saiu de Itajubá, no interior de Minas Gerais, para a cidade litorânea de Santos. Lá ela vivia com os pais e cursava a faculdade de direito em um município vizinho. Depois de perceber que a legislação não era bem a sua área, Letícia resolveu prestar vestibular em duas faculdades do Estado de São Paulo. A PUC e a Unisanta foram as opções da mineira. Por falta de vagas na PUC e por conhecer algumas amigas que já moravam no litoral, a jovem optou por fazer jornalismo em Santos.

Hoje, Letícia mora com três colegas em um apartamento no prédio Itajaí, localizado em frente à faculdade. Ela ressalta que a liberdade de fazer o que quiser é barrada na responsabilidade de ter que fazer a sua comida, ter que limpar as suas coisas e ter que se “automedicar” quando está doente. “Não tem mamãe nem papai para cuidar de você. É uma vida totalmente diferente da que eu tinha lá em Itajubá.”, diz a estudante.

A república é nada mais do que uma casa/apartamento onde jovens de diferentes lugares moram para que possam fazer a faculdade que tanto desejam. As universidades que possuem algum curso que se destaca dos outros, tendem a chamar mais atenção para estas repúblicas. Em residências ao redor ou próximas às universidades, podemos achar com facilidade três, quatro ou cinco repúblicas para jovens que migram de cidades distantes.

Os preços podem variar conforme a localização e a quantidade de quartos. Em repúblicas que ficam próximas à faculdade e com quartos individuais, os valores chegam aos R$ 600,00 por mês. Este valor é muitas vezes dividido entre quatro, cinco ou até seis pessoas. Nas próprias faculdades há alguns folderes que possuem telefone de contato para essas moradias.

A psicóloga, pedagoga e pós-graduada em neuropsicologia, Sandra Bezerra, apoia a ideia de que a pessoa viva em uma república. “É benéfico. Viver em república é vantajoso desde que o jovem tenha uma personalidade estruturada pela família”, diz Sandra. Para ela, o adolescente só vai conseguir conviver com os demais se ele souber viver em grupo e aprender a compartilhar qualquer coisa presente dentro de sua nova moradia.

“O adolescente não preparado só vai bater nas barreiras que o mundo impõe.”, Sandra alerta que o jovem deve aprender a ceder algumas coisas para que o ambiente em que vive seja confortável, pois, em sua cabeça, ele tem a “liberdade” que não tinha em casa. Com isso acaba passando de alguns limites dentro da república, o que gera conflitos com seus companheiros.

Gustavo Apolinário Domingues, 21 anos, mora em uma república há dois anos e meio. Ele conta que já viu pessoas chegarem e saírem da república onde vive. “Com certeza o maior problema é conviver com pessoas de todos os estilos. Você pode morar junto com um punk e um pagodeiro.”, disse o estudante, que está no seu penúltimo ano de Ciências da Computação na Unisantos.

O jovem conta que já viu muitas brigas e presenciou muitas cenas de risos no prédio. Era um que chegava bêbado em “casa” e não conseguia subir as escadas, outro que explodiu a lasanha quando foi colocá-la no micro-ondas. “No fim das contas é bom. A gente acaba aprendendo muitas coisas com pessoas de outros lugares e eles aprendem com a gente.”, completa Domingues.

A psicóloga Sandra afirma que o adolescente que mora em república pode ter melhor rendimento profissional do que o outro que reside com os pais. A experiência de morar e conviver mais cedo com pessoas “desconhecidas”’ geralmente contribui para que jovem tenha maior facilidade de se relacionar melhor futuramente no mercado de trabalho.

É o que a estudante de psicologia, Camila Savassa Araújo, de 22 anos, conta. Ela migrou do interior de São Paulo para Santos com ideia de fazer faculdade de Artes Visuais na Unisanta. Morou em uma república também formada só por mulheres e depois de um semestre decepcionante largou a faculdade, conseguiu um emprego e começou a juntar dinheiro para fazer outra faculdade, a de Psicologia.

Hoje, Camila mora sozinha em um apartamento em São Vicente. Ela se sustenta com seu emprego, e continua sua faculdade. “Poderia ter ficado na república. Pagava menos, tinha mais companhia, mas aprendi muita coisa lá que está servindo para o convívio no meu emprego e na minha futura área de trabalho. Me vejo mais responsável e preparada para tudo.”, conta.

“Viver sozinho faz bem”, explica a psicóloga. Sandra diz que é importante para a vida profissional, o período em que o jovem começa a ter uma visão de mundo diferente e não tem mais seus pais para lhe dar o suporte que foi dado durante toda a sua vida Segundo ela, este amadurecimento desperta para a “vida adulta”.